Uma vida de educação atravessada pelo mar
Nascido e criado em Vera Cruz, Silvano transformou lembranças da infância, experiências escolares e anos de trabalho na educação em uma pesquisa dedicada à Ilha de Itaparica. Sua trajetória aproxima sala de aula, mar, travessias, pesca, religiosidades, cultura popular e os saberes construídos pelas comunidades.
Infância, família e formação na ilha
Silvano nasceu em 27 de junho de 1979, no antigo Hospital Maria Amélia Santos, em Vera Cruz. Filho de Joana Alves de Antão e Antônio de Oliveira Costa, cresceu em uma família ligada ao trabalho, à agricultura e ao mar. Viveu parte da infância em Mar Grande e também na comunidade rural da Juerana.
Estudou em escolas públicas e descreve uma formação marcada por caminhadas longas, transporte difícil, classes multisseriadas, leitura de jornais, revistas, histórias em quadrinhos e da Bíblia. Ainda jovem, ajudava professores em turmas infantis e de Educação de Jovens e Adultos, apoiando moradores na leitura, na escrita de cartas e nas atividades escolares.
No curso de Magistério, encontrou professores que estimularam a leitura, as visitas a museus, o estudo da realidade local e aulas nos manguezais. Essas experiências fortaleceram sua decisão de seguir a profissão docente.
Da sala de aula à gestão e à formação de professores
Aos 18 anos, iniciou uma experiência de estágio em uma turma da antiga 4ª série. Em janeiro de 2000, foi aprovado em sexto lugar no concurso público de Vera Cruz e, em abril, começou a atuar na Escola Nossa Senhora de Guadalupe. No mesmo ano, ingressou no curso de Pedagogia, conciliando trabalho e estudo.
Depois da graduação, concluída em 2003, exerceu funções de professor, diretor escolar e coordenador pedagógico. Buscou formação em gestão e psicopedagogia, participou da formação de educadores e, a partir de 2006, também viveu a experiência de lecionar em curso superior de Pedagogia.
Em 2009, foi convidado a atuar no departamento de avaliação educacional e formação continuada da Secretaria Municipal de Educação de Vera Cruz e também assumiu a Diretoria de Ensino, trabalhando com jornadas pedagógicas, diretores, coordenadores e práticas de ensino.
A pesquisa “Docência nas Águas”
Após diferentes tentativas de ingresso no mestrado, Silvano foi aprovado no Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade da UNEB. A dissertação Docência nas Águas: diversidade cultural, maritimidade e travessias na Ilha de Itaparica foi defendida em 2015.
A investigação reuniu pesquisa autobiográfica e entrevistas narrativas com oito professores da Educação Básica. O trabalho acompanhou docentes que viviam o cotidiano da travessia entre Salvador e a Ilha de Itaparica, analisando o deslocamento pelo mar, as condições de trabalho, a diversidade cultural e os vínculos com as comunidades.
Na pesquisa, a travessia aparece como experiência física e também simbólica. O mar não é apenas caminho: ele organiza horários, afetos, medos, aprendizagens, planejamentos, relações profissionais e modos de compreender a escola.
Cultura das águas e contribuição para a memória local
A obra apresenta a ideia de “cultura das águas” para reunir práticas, conhecimentos e símbolos ligados à pesca, à mariscagem, às marés, às embarcações, às religiosidades, às festas comunitárias e à vida cotidiana próxima ao mar.
Ao registrar memórias de Mar Grande, Jaburu, Juerana, Tairu e de outras comunidades, Silvano preserva experiências que frequentemente ficam fora dos documentos oficiais. Sua escrita mostra que a história da ilha também está nas trajetórias escolares, nos caminhos até a escola, nas travessias de lancha e nos saberes transmitidos por pescadores, famílias e educadores.
A dissertação também chama atenção para a necessidade de práticas pedagógicas e políticas públicas capazes de reconhecer a diversidade cultural da Ilha de Itaparica e valorizar os professores que trabalham em territórios costeiros e insulares.
Perfil elaborado a partir da autobiografia e dos dados apresentados na dissertação defendida em 2015. A seção descreve a trajetória registrada nessa fonte e não presume acontecimentos profissionais posteriores.