Vista aérea da Vila de Matarandiba, cercada por águas, vegetação, casas e pequenas embarcações
Contracosta de Vera Cruz · Baía de Todos-os-Santos

Matarandiba

Uma vila onde conchas pavimentam memórias, a maré organiza o trabalho e os causos atravessam gerações como pequenas embarcações de palavras.

Pesca e mariscagem Saberes do corpo, das águas e das fases da lua.
Memória comunitária A ASCOMAT nasceu em 2008 para fortalecer a cultura local.
Tradição oral Causos, sambas, autos e festas mantêm a voz da vila em movimento.
Entre peixes, conchas e parentesco

Uma vila pequena na geografia, enorme na memória

Matarandiba é uma comunidade tradicional de pescadores e marisqueiras situada na contracosta da Ilha de Itaparica, em Vera Cruz. Sua história é construída na relação entre mar, mangue, trabalho, parentesco e cultura oral.

Pesquisas realizadas na comunidade descrevem famílias ligadas por fortes laços de parentesco, mulheres que aprendem a mariscar ainda jovens e pescadores que transformam peixes, visagens e acontecimentos do mar em narrativas compartilhadas.

01
Vila pesqueiraBarcos, canoas, redes, mariscos e leitura das marés.
02
Comunidade de memóriaHistórias, festas e objetos são preservados pelos próprios moradores.
03
Território em transformaçãoA industrialização alterou acessos, paisagens e relações de trabalho.
Vista aérea de Matarandiba com casas, vegetação, faixa de areia e águas rasas
A vila vista do alto A comunidade ocupa uma pequena porção da ilha, entre águas abrigadas e vegetação.
Leia a maré

O tempo não corre só no relógio

Lua, vazante, enchente e amplitude das águas organizam o trabalho cotidiano.

Escute a voz

Os causos são documentos vivos

As narrativas misturam lembrança, imaginação, valores e lugares reconhecíveis.

Respeite

A paisagem também é território

Praia, mangue, restinga e porto são espaços de moradia e trabalho.

Um nome indígena que atravessou séculos

Por que se chama Matarandiba?

A explicação mais consistente encontrada em estudos toponímicos relaciona o nome a uma planta e à ideia de abundância.

Interpretação toponímica

Matara + ndiba

Matara seria uma redução de matarânna, nome associado a uma planta da família Renealmia sylvestris, também chamada de cardamomo-da-terra em algumas referências.

O elemento -ndiba indica abundância. Assim, Matarandiba pode ser interpretada como “lugar onde há muitas mataranas”.

Matara+-ndibaMataranas em abundância
Nomes antigos

Tamarandiva e Ilha dos Burgos

Em documentos da colonização, o território aparece associado à forma Tamarandiva, presente no nome da antiga Capitania de Itaparica e Tamarandiva.

O historiador Ubaldo Osório também registrou que a vila foi chamada de Ilha dos Burgos, por ter pertencido aos descendentes do ouvidor Cristóvão de Burgos.

Da ilha isolada à organização comunitária

Uma história feita de travessias

Até a década de 1970, Matarandiba era uma ilhota separada da Ilha de Itaparica. Pessoas, alimentos e notícias chegavam principalmente por navios e saveiros.

A chegada da exploração industrial de sal-gema modificou profundamente o território. Um aterro criou ligação terrestre com Itaparica, facilitando o acesso, mas moradores também relacionaram essa transformação a mudanças na pesca e no ambiente.

Em 2008, a mobilização local deu origem à Associação Sociocultural de Matarandiba, a ASCOMAT, voltada à valorização da identidade, das manifestações culturais e da memória.

Século XVI
Itaparica e Tamarandiva

A ilha aparece nos registros da antiga capitania donatária criada no período colonial.

Antes de 1970
Entrada e saída pelas águas

Navios e saveiros ligavam a vila a Salvador e a outros pontos da Baía.

Década de 1970
Industrialização e aterro

A exploração de sal-gema e a ligação terrestre alteraram o cotidiano e a paisagem.

2008
Criação da ASCOMAT

A associação passou a articular memória, cultura, leitura e organização comunitária.

2013
Pesquisa sobre memória social

Estudo etnográfico analisou a construção de um memorial comunitário na vila.

2018
Colapso do terreno e estudos técnicos

O surgimento de uma grande cavidade motivou relatórios, monitoramento e reivindicações da comunidade.

O trabalho começa antes de entrar na água

Maré, mariscagem e conhecimento do corpo

Em Matarandiba, a maré não é apenas água em movimento. É calendário, lugar de trabalho, caminho, memória e relação de parentesco.

O que é a “maré morta”?

A expressão local descreve um período de menor amplitude das águas, ligado às fases de quarto crescente e quarto minguante. A maré não enche totalmente nem esvazia por completo, deixando parte da restinga descoberta.

Para a pesca e a mariscagem, isso pode significar menor rendimento. A maré funciona como uma medida do tempo e indica quando ir, quando voltar e quais espécies podem ser encontradas.

ChumbinhoAbundante, mas exige horas de coleta e beneficiamento.
Ostra e sururuEncontrados em áreas de mangue e maré.
Aratu e caranguejoExigem leitura do comportamento e do ambiente.
Peguari e siriDependem de técnicas específicas e diferentes pontos de captura.
02

A raiz da mãe

A pesquisa etnográfica mostra como mulheres criaram filhos na maré e transmitiram conhecimentos, responsabilidades e vínculos familiares por meio do trabalho.

03

Trabalho coletivo

Depois da coleta, familiares, amigas e comadres podem se reunir para separar o marisco das conchas. O quintal vira oficina, conversa e rede de ajuda.

A vila canta o próprio inventário cultural

Festas, sambas e personagens que voltam todo ano

As manifestações de Matarandiba misturam religião, brincadeira, teatro, música e participação comunitária. A tradição não fica parada: ela se adapta, ganha novos registros e conversa com televisão, internet e redes sociais.

Auto popular

Zé de Vale

Romance tradicional encenado com canto, personagens, cenário e participação da praça. A versão local incorpora referências ao canavial, à família e à religiosidade.

Ciclo natalino

Terno de Reis e São Gonçalo

Cortejos, roupas, chapéus coloridos, cantos de porta em porta e devoção aproximam fé popular e convivência comunitária.

Brincadeira de rua

Boi Janeiro

Versão local do boi festivo, tradicionalmente ligada ao mês de janeiro, com vaqueiro, baliza, música e participação de moradores.

Virada do ano

Aruê

Festa de Ano-Novo descrita pelos moradores como forma de saudar o tempo que chega e despedir o ano que termina.

Memória organizada

ASCOMAT e memorial comunitário

A associação reúne documentos, objetos, imagens e lembranças para que acontecimentos cotidianos e manifestações não desapareçam no esquecimento.

Memória como direito

Guardar não significa congelar

O memorial comunitário foi pensado para registrar acontecimentos valorizados pelos moradores, a vida cotidiana, os lugares, o trabalho, o lazer e as relações. A memória é reconstruída no presente, escolhendo o que deve ser lembrado e transmitido.

Conhecer a ASCOMAT
Entre o visto, o ouvido e o imaginado

Causos e lendas de Matarandiba

Os causos são narrativas contadas como experiências verdadeiras ou muito próximas de quem narra. Eles caminham na beira fina entre acontecimento, mistério e imaginação.

01 O brilho da mina

Os Pintinhos de Ouro

D. Cidra contou que seu pai viu, perto de uma antiga mina, uma galinha cercada por pintinhos amarelos. Quando tentou alcançá-los, tudo desapareceu. A avó explicou: aqueles pintinhos seriam de ouro.

O causo liga mina, riqueza, desejo e paisagem local.
02 A mata que confunde caminhos

A Caipora

Em um relato coletado na vila, uma menina e a avó se perderam ao voltar de Jiribatuba, mesmo conhecendo a região. A avó dizia que a Caipora havia embaralhado o caminho.

A narrativa conecta Matarandiba, Matange, Jiribatuba e os mistérios da mata.
03 Fogo sobre as águas

O Facho das Comadres

Pescadores e moradores narram dois fachos de fogo que se enfrentam sobre o mar. Os mais velhos dizem que seriam duas comadres que brigavam em vida e continuaram discutindo depois da morte.

O causo aproxima mar, parentesco, memória e presença dos mortos.
A paisagem também registra conflitos

Sal-gema, aterro e o colapso de 2018

A mineração introduziu empregos, infraestrutura e novas conexões, mas também transformou a relação da comunidade com seu território e gerou preocupações ambientais.

2018

Um evento que exigiu investigação técnica

Em 30 de maio de 2018, foi identificada uma cavidade no extremo norte da ilha. O relatório preliminar do Serviço Geológico do Brasil registrou dimensões iniciais próximas de 70 metros no eixo maior, 29 metros no eixo menor e 45 metros de profundidade.

O episódio mobilizou órgãos públicos, técnicos, empresa e comunidade. O relatório foi elaborado para investigar causas, avaliar riscos e recomendar monitoramento.

Década de 1960O depósito de sal-gema foi identificado em estudos da Petrobras.
1976O relatório registra a perfuração do primeiro poço.
1977Começou a transferência de salmoura por salmoroduto até Aratu.
2018A comunidade solicitou apoio técnico e avaliação independente de risco.
Matarandiba em imagem e movimento

Paisagens da vila

As fotografias mostram águas rasas, mangue, pesca e diferentes maneiras de enxergar a pequena ilha.

Registro audiovisual

Um passeio de trinta segundos

Vídeo enviado para o projeto mostrando paisagens e detalhes da comunidade.

Matarandiba em oito fatos

Detalhes que ajudam a ler a comunidade

01

Já foi uma ilhota separada

Antes do aterro da década de 1970, a entrada e a saída dependiam principalmente das águas.

02

As conchas estão por toda parte

Pesquisas registraram conchas em calçamentos, paredes, artesanato e na própria atividade econômica.

03

A moeda local se chama Concha

O Banco Comunitário Ilhamar criou uma moeda social associada à economia solidária da vila.

04

Barra Falsa aparece nas memórias de passeio

Textos sobre a vila citam dunas claras, águas transparentes e caminhadas ecológicas.

05

A fonte do Tororó integra a geografia afetiva

Fontes foram lugares de banho, água, encontro e lembranças da infância.

06

O samba mirim ajuda a continuar a tradição

Crianças e jovens participam de manifestações e aprendem pela presença e pela performance.

07

A voz convive com a tecnologia

TV, vídeo e redes sociais passaram a registrar e divulgar práticas antes transmitidas apenas ao vivo.

08

A memória é também uma forma de resistência

A organização comunitária transforma fotografias, objetos, festas e relatos em instrumentos de pertencimento e defesa do território.

Visite com escuta e cuidado

A vila não é cenário vazio

Matarandiba é território de moradia, trabalho, cultura e memória. Quem visita precisa reconhecer os ritmos e os limites da comunidade.

Respeite áreas de pescaNão bloqueie acessos, embarcações, redes ou locais de beneficiamento.
Proteja o mangueNão retire animais, conchas, plantas ou madeira.
Confirme o acessoEstradas, transporte e condições de visita podem mudar.
Valorize iniciativas locaisProcure projetos comunitários, guias, alimentos e atividades organizadas por moradores.
Conecta Vera Cruz · Memória coletiva

Vozes de Matarandiba

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Memórias da comunidade

Histórias compartilhadas

0 publicações
Pesquisa, memória e transparência

Fontes da página

Os textos foram resumidos e adaptados para leitura pública, sem transformar lendas em fatos comprovados.

Thaís Aparecida Pellegrini Vieira · Navegando pelos “causos” de Matarandiba

Retrato da vila, transformações territoriais e narrativas dos Pintinhos de Ouro e da Caipora.

Edil Silva Costa e Thaís A. P. Vieira · A voz tradicional na contemporaneidade

Manifestações culturais, Zé de Vale, Voa Voa Maria, Aruê, Boi Janeiro e relações com a mídia.

Renata Freitas Machado · Maré Morta

Mariscagem, parentesco, corpo, fases da maré e o causo dos fachos das comadres.

Serviço Geológico do Brasil · Relatório preliminar da Ilha de Matarandiba, 2018

Caracterização da ilha, histórico da mineração e avaliação preliminar da área colapsada.

Agência de Notícias em Ciência e Cultura da UFBA

Reconstrução da memória coletiva, criação da ASCOMAT e formação do memorial comunitário.

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Luciano da Costa Santos de Almeida · Estudo de toponímia

Interpretação do nome Matarandiba como matara acrescido do sufixo de abundância -ndiba.

Alexandre Gonçalves do Bonfim · Capitanias de Itaparica e Tamarandiva

Contexto colonial e registro histórico da forma Tamarandiva.

Consultar no Repositório da UFBA